Que por minha vida Cristo seja conhecido

Ao olhar para as páginas do Novo Testamento, eu preciso ter em mente que a preocupação central dos escritores era manter acesa a chama da fé das primeiras comunidades cristãs, bem como, desafiá-las a seguirem o exemplo deixado por Jesus e pelos discípulos. 

Por isto, os escritos neotestamentários descreverão Jesus a partir de diversos títulos: Em algumas partes ele é Messias, em outras ele é Rei, profeta, Filho de Deus, Verbo encarnado e por aí segue. Todos estes títulos procuram descrever a pessoa e a obra de Jesus, tendo como objetivo final, a geração ou manutenção da fé da comunidade.

Mas, para a nossa reflexão, eu gostaria de escapar um pouco desta abordagem tradicional pautada pelos títulos, e tentar uma abordagem diferente, baseada não nos títulos, mas sim, em alguns atributos do Pai que são naturalmente visíveis no Filho.

Proponho este caminho por alguns motivos: 1) Por entender que Jesus é a manifestação visível do Deus invisível (Quem vê Jesus, vê o Pai); 2) Em Jesus, o Pai comunica, plena e definitivamente, sua vontade para o ser humano; 3) Os atributos escolhidos têm implicações profundas para uma espiritualidade mais prática e relevante para os desafios impostos pela nossa sociedade.

Assim, surge a pergunta mais importante: Quem é Jesus?

 

a)      Jesus Cristo é a manifestação do Amor Divino

Esta é a base dos evangelhos. Jesus é a comunicação maior, a manifestação mais perfeita e sublime do amor do Pai.

Isto não significa que o Pai não tinha comunicado seu amor anteriormente. Porém, nada se compara à manifestação do amor encontramos em Cristo Jesus. Por isto Paulo disse: Quem nos separará do amor de Deus que está em Cristo Jesus?

Jesus não carrega apenas uma mensagem de amor. Ele é, em si mesmo, a própria mensagem de amor. Ela é Palavra, o Logos encarnado, a mensagem de amor do Pai à humanidade.

Esta verdade é tão prática e desafiadora que me constrange profundamente. Fazendo-me sair do meu estado de inércia espiritual a fim de me projetar na direção do próximo. Comunicando também este amor. Não apenas como teoria, mas como essência da minha própria vida.

Esta é a primeira lição que eu percebo da parábola do Bom Samaritano. Entendo que Jesus quer mostrar que o amor não é uma teoria a ser proclamada, é um valor a ser vivenciado diariamente.

As figuras do Sacerdote e do Levita não foram empregadas aleatoriamente por Jesus. Ele as usou porque personificavam o compromisso judaico de “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Esta foi a resposta do doutor da Lei.

Mas, uma era a teoria. E outra foi a prática.

Hoje, vivemos em uma sociedade onde o desafio de comunicar o amor é tão complexo quanto o dilema da parábola contada por Jesus. Quem é o meu próximo, a quem devo manifestar o amor? Aquele que pensa como eu? Aquele que tem a mesma fé que a minha?

Não. O próximo é aquele que clama por socorro e os meus olhos veem, meus ouvidos ouvem e minhas mãos alcançam. Na direção dele eu me lanço para expressar o amor com o qual fui um dia amado.

Você pergunta: Amar é aceitar a pessoa como ela se encontra? Sim. Fomos amados como nos encontrávamos. E aos poucos fomos trabalhados pelo Senhor. O amor aceita, a santidade transforma.

 

b)     Jesus Cristo é a manifestação da Graça Divina

A Graça é, talvez, um dos atributos mais falado e, ao mesmo tempo, menos compreendido. Nossa compreensão da graça é muito instrumental: somos salvos pela fé mediante a graça. A fé é o meio de apropriação e a graça a causa instrumental.

Mas, pensemos na graça como um atributo divino. Ela não apenas configura a forma como Deus nos trata (graciosamente, generosamente, favoravelmente), mas também, descreve aquilo que ele é que não pode deixar de ser.

Neste sentido, eu encontro na análise do termo Graça, um princípio valioso para nossa reflexão. A palavra Graça possui o sentido de belo, encanto, beleza interior que se manifesta em tudo o que se faz ou comunica. Agora, se Jesus é a manifestação da Graça Divina, então, ele é a manifestação perfeita de toda esta beleza e encanto que constituem a divindade.

Somente a partir desta perspectiva eu consigo entender porque Jesus agia tão graciosamente com os pecadores, marginalizados e oprimidos. Ele não pode negar aquilo que realmente é.

Somente a partir desta perspectiva eu consigo compreender melhor porque as pessoas se maravilhavam tanto com os ensinamentos e as palavras de Jesus. Certamente não era por causa da erudição dos termos, mas sim, porque comunicavam aquilo que Ele mesmo era: graça, beleza, encanto, vida, esperança.

Aplicando este princípio à parábola do Bom samaritano teremos uma noção do impacto que a parábola causou nos doutores da Lei que ouviam. Quem deveria manifestar a Graça, a virtude de Deus, não o fizeram (põe em xeque a eleição). Quem era considerado não-povo, este manifestou a virtude do Deus de Israel.

As ações do Samaritano são impregnadas da Graça divina. Ele observa o caído, ata as feridas, aplica remédio, coloca-o no cavalo e leva-o para um lugar onde possa ser cuidado. Ações, atitudes, prática.

Hoje, se aceitarmos o desafio de manifestar Cristo por meio de nossas vidas. Então precisamos encontrar uma forma de sair da teoria e vivenciar uma espiritualidade mais prática. Uma espiritualidade que seja carregada de ações graciosas, que manifestem a essência do Pai.

De forma prática, poderíamos pensar em visitas a asilos, orfanatos, etc. Mas também poderíamos pensar na manutenção da praça do nosso bairro, nas ações solidárias, enfim, atitudes de que comuniquem Cristo como a manifestação da Graça de Deus aos homens.

Finalmente, o último ponto que eu gostaria de trabalhar neste momento.

 

c)      Jesus Cristo é a manifestação da Justiça Divina

Justiça sem misericórdia é vingança. E misericórdia sem justiça é impunidade. O que vocês acham? Geralmente, temos a facilidade de pensar a justiça excluindo a misericórdia, assim como, temos a facilidade de pensar a misericórdia excluindo a justiça. Mas será que é assim que Deus comunica sua justiça aos homens?

O apóstolo Paulo faz uma declaração importantíssima: “Mas, agora, se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da Lei e dos Profetas” (Rm 3:21).

John Stott interpreta esta passagem à sombra da Cruz de Cristo. Para ele, a justiça de Deus se manifesta na Cruz. Particularmente, tenho para mim, que não apenas na Cruz, mas na própria pessoa de Jesus se manifesta a justiça de Deus. Pois leio este texto tendo em mente as palavras do próprio Jesus: “Examinai as escrituras, porque elas dão testemunho de mim” (Jo 5:39).

Se Jesus é a manifestação desta justiça divina, então é preciso olhar para a vida de Jesus e seus ensinamentos a fim de compreender melhor o que ela significa. Se nós olharmos atentamente para o Novo Testamento, em todos os momentos onde a Lei era invocada para exigir um ato de justiça, Jesus manifestou o perdão e a misericórdia. Um exemplo clássico é o relato da mulher adúltera pega em flagrante, a coletânea de ensinos sobre “Ouvistes o que fora dito” (olho por olho, mas eu vos digo; Odeie o inimigo, mas eu vos digo).

O padrão de humano justiça não expressa o padrão de justiça divino. Nós pensamos a justiça como punição. Deus promove a justiça em termos de misericórdia e perdão. É bem verdade que Ele também o faz em termos de condenação, preste atenção às palavras de Jesus sobre isto: “Quem me rejeitar a mim e não receber as minhas palavras já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último Dia” (Jo 12:49).

Rejeitar a pessoa e os ensinamentos de Jesus representa rejeitar a manifestação do perdão, da misericórdia, da proposta de reconciliação com o Pai. Não crer em Jesus é optar pela condenação. O afastamento, isto é, o inferno é apenas a punição.

Eu encontro em Jesus, não apenas, a figura passiva do Cordeiro para a expiação. Mas também, a manifestação perfeita da justiça de Deus, isto é, a manifestação do perdão e da misericórdia divina. Por isto aceitar Jesus é aceitar o perdão e a misericórdia divina. Descansar em Jesus é descansar no perdão e na misericórdia divina. Viver em Jesus é viver no perdão e na misericórdia divina.

Voltando para nossa parábola. O Bom Samaritano manifestou a justiça divina, não porque condenou ou puniu o sacerdote e o levita, mas sim, porque se colocou ao lado de quem estava sofrendo agindo com misericórdia. E todas as vezes que demonstramos o perdão e a misericórdia, manifestamos Jesus através de nossos gestos.

Nosso maior desafio para tornar Cristo conhecido por meio de nossas vidas, é exatamente alinhar o nosso conceito de justiça ao modelo de justiça apresentado por Jesus. Receio que muitos que clamam por justiça, clamam, na verdade, pela condenação ou punição do próximo. E não para que ele encontre perdão e misericórdia manifestados em Jesus.

Se meu objetivo é comunicar Cristo como manifestação da justiça (perdão e misericórdia) divino. Acredito que o caminho é repensarmos nossos modelos de evangelismo (não mais pautado no medo, mas na aceitação) e a maneira como interagimos com o mundo que nos cerca (abandonar o julgamento, condenação e apresentar o perdão e a misericórdia).

 

Conclusão:

Chegando ao final desta reflexão, retomo a questão inicial: Quem é Jesus? Qual o perfil que apreendemos dos Evangelhos? Jesus é, antes de qualquer coisa, a manifestação perfeita do amor, da graça e da justiça divina. A missão do Filho não é apenas pregar uma mensagem. Mas ser a própria mensagem de transformação, de reconciliação e de restauração do ser humano.

Quando assumo o compromisso proposto pelo tema do acampamento: “Que por minha vida, Cristo seja conhecido”. Então, assumo o compromisso de transmitir o Amor, a Graça e a Justiça divina. Uma transmissão não apenas oral, mas principalmente, vivencial. Um compromisso de ser um instrumento de transformação, de reconciliação e de restauração.

Que por minha vida o amor de Deus seja conhecido

Que por minha vida a graça de Deus seja conhecida

Que por minha vida a justiça de Deus seja conhecida

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